Geopolítica e negócios: afinal, quando a ação de governos é positiva ou negativa para expansão de sua marca

Por Roberto Marcio

Hoje quero começar meu artigo de uma maneira bem diferente. Em vez de iniciar o papo com a abrangência do conteúdo que fará parte da minha escrita, vou imaginar uma situação hipotética que mostrará o quão positivo ou negativo pode ser montar um negócio e que o seu sucesso ou fracasso pode ser determinado pela ação geopolítica de um governo. Dentro desse raciocínio, quero fazer uma analogia ao papel da inteligência competitiva, que tem meios para prever o que pode ocorrer com sua empresa numa ação governamental. 

Me chamo Mao Tse Tung (nome fictício) e tenho 25 anos e resolvi fazer uma startup. Apostei tudo na montagem de um aplicativo que facilita os pais monitorarem seus filhos enquanto estes estiverem fora de casa. Ao fazê-lo, nas primeiras semanas mais de meio milhão de pessoas baixaram a plataforma, trazendo junto um punhado de investidores que injetaram muita grana no meu pequeno empreendimento. Nas três semanas seguintes, os números pularam mais dois milhões.

Não teve jeito: o quarto da minha casa, que divido com minha mãe, precisou de funcionários e uma estrutura para atender a demanda que só aumentava dia-a-dia. Fiz um baita escritório com o dinheiro que faturava.  Nas redes sociais, muitas discussões sobre os benefícios do meu aplicativo, mas sei lá, era tanta gente utilizando que pouco me preocupei com os críticos. Aqui, na China, em todos os cantos conquistava mais e mais clientes. Parecia que as famílias aderiram ao “Fique de Olho”. Fiquei entusiasmado que resolvi levá-lo para os Estados Unidos.

Lá, o sucesso se repetiu. Fiz uma versão para os padrões norte-americanos e atingi a marca de US$ 1 bilhão de dólares em quatro meses. Tudo parecia um paraíso para mim, pois os dois maiores mercados do mundo absorveram meu aplicativo com maestria. Só que não esperava que ambas as nações entrassem em conflito diplomático e até comercial. Noutro dia, recebo uma carta do Departamento de Estado pedindo para deixar a América de um dia para o outro e que os bens patrimoniais foram bloqueados, já que fui acusado de obter os dados de americanos e repassando ao governo do meu país. Tudo aquilo que construí em pouco tempo se acabou, perdeu a credibilidade porque hackers americanos começaram a atacar meus negócios. Nunca gostei de me meter em política, mas ela me engoliu.”

O fato narrado em três parágrafos deu uma exata noção de que como as empresas estão suscetíveis a pressão externa, vinda da política internacional. No século 21, isto fica cada vez mais evidente quando negócios privados são duramente impactados com as ações de um país, mas a boa notícia é que  tudo pode ser minimizado, caso tenha uma equipe competente que não está apenas digerindo bytes de dados a todo tempo, mas ter o conhecimento do que acontece em economia internacional e geopolítica. 

Se “Mao Tse Tung” tivesse, por exemplo, uma assessoria de inteligência competitiva, provavelmente tomaria medidas que evitariam a perda de muito dinheiro que detonou seu empreendimento, aliás que tinha tudo para se expandir. Essa mesma assessoria informaria que a China assinou uma lei, em 2017, que obriga empresas e cidadãos a informarem dados que sejam de interesse da segurança nacional, caso solicitado. 

Prever cenários é uma das atribuições da inteligência competitiva e neste caso Inteligência é informação, sagacidade e um meios sobre como construir um quadro para enxergar as intempéries que estão para chegar, uma ação que impacta diretamente nos negócios. Ali se estuda situações, simula condições e parte em busca de respostas.

Ainda sobre brigas comerciais que envolvem as maiores potências do planeta, podemos fazer uma analogia com o polêmico caso em que o Presidente dos EUA, Donald Trump, abriu uma nova frente de crise comercial com os chineses e o motivo é justamente um dos maiores sucessos da tecnologia: O TikTok. Ele é um aplicativo que tem como função principal a criação e o compartilhamento de vídeos curtos. 

De propriedade da companhia chinesa ByteDance, foi lançado na China em setembro de 2016. Esse recurso está em primeiro lugar na preferência da Ásia, sobretudo na faixa etária dos adolescentes com cerca de 800 milhões de usuários. Para título de comparação, a quantidade é um pouco menos que a soma dos usuários do Twitter e Snapchat.

Trump acusa o aplicativo de repassar propaganda contrária aos interesses americanos e de espionar seus usuários, coletando dados daqueles que fazem e assistem os vídeos e repassando-os ao governo chinês. 

Não se sabe se a empresa chinesa havia previsto o que estava para acontecer e em uma informação difundida pela imprensa, a ByteDance, estuda a possibilidade de “americanizar” o aplicativo como uma forma de drible ao acesso restritivo dos EUA. Uma outra medida tomada foi a contratação de um executivo americano para dirigi-lo, falando em instalar sua sede fora da China e considerando a possibilidade de vendê-lo.

Se trouxermos comparativamente ao Brasil, podemos citar um caso em que uma empresa estrangeira quer se instalar no país para dar acesso a uma nova tecnologia de internet, o 5G. Recentemente, o governo dos EUA sugeriu para que não adquirirem a tecnologia que vem da China (olha ela de novo!) e parece que encontrou eco na política verde e amarela.  

Dois deputados estaduais de Santa Catarina, que por meio de um projeto de lei, pretendem proibir testes e instalação da tecnologia no estado, sob a alegação de possíveis danos à saúde das pessoas e animais. Há quem diga que os políticos seriam alinhados à ideologia do presidente americano.

O que é público e notório que as empresas mantenham-se conectadas ao que acontece no mundo. Nada melhor do que ter relatórios confiáveis a partir de dados transformados em informação correta para a assertividade dos negócios. 

Vale lembrar que, embora o negócio tenha a liberdade de tomada de decisão, fatores externos podem contribuir para o sucesso ou fracasso. 

E sem alguém para analisar detalhadamente todos os aspectos que envolvem, poderá ter um destino como o de “Mao Tse Tung”, ver um sonho destruído por picuinhas de governos e ideologias, muitas delas prejudiciais ao ambiente de trocas financeiras.